LET IT SHINE

                                         

Coração blindado

Em meio a tantos conflitos mundanos, meu coração está em paz. Pela primeira vez, está de bem comigo, digno de obediência, transbordando calma. Não transparece vazio, mas também não está superlotado. Ele segue o meu ritmo, os meus passos, a minha paciência. Não insiste mais em querer aquilo que contraria a razão, pois percebeu que aliar-se ao inimigo é mais cômodo, menos doloroso. Com o tempo, aprendeu a não ter pressa, resolveu esperar por algo bom em vez de se desgastar com aventuras sem futuro. A sua mais nova amiga, a razão, disse que há sempre alguém especial por vir, pode demorar, mas no momento certo aparecerá. O coração aprendeu também a se divertir, curtir momentos, sem se apegar àqueles que são passageiros e não querem nada mais que distração. Coração, agora, sabe me amar, cuidar de mim, e com ele estou vivendo um eterno, narcisista e intenso relacionamento amoroso.
Sabrina Teles; 06/02/2012

Os dois lados


Pensando bem, eu gosto do chuveiro que cai pouca água, da mãe estressada e do irmão pirracento. Pensando bem, é bom ter amigo desmiolado, que não faz e nem entende piadas nerds. Por um lado, é boa a comida feita para quatro, o suco da polpa é uma delícia e o doce de goiaba também. Poder andar de calcinha, tomar café de pijama é muito bom, mas quando a saudade bate, tudo que é prazeroso se torna ínfimo  perto de da dor que a ausência causa.

Saudade ácida, fina, apertada, descontrolada. É impossível conter os olhos ao lembrar do passado junto com aqueles. Parece que a casa cheia de móveis está vazia, pois há a certeza que tudo que deixamos lá   é muito grande  para caber em nosso lar.
Me disseram que o afastamento é inevitável. Concordo e sei que seria impossível manter os 156 juntos até o fim da vida. No entanto, acredito que para os 9, seria um prazer seguir com uma amizade diária, repleta de refeições, saídas e conversas fraternais. Sei também que para as 3, seria maravilhoso dormir e acordar infinitamente uma do lado da outra, vendo o sorriso empolgado antes de dormir e a cara amassada ao acordar.  Para os 2, seria memorável viver uma diária história de amor, um pseudo casamento, uma fuga da rotina.Para os 14, seria incrível ter uma turma tão singular na universidade, repleta de gostos diferentes.
A distância machuca. Se fosse pra sempre, seria mais fácil, não iria doer, não deixaria feridas para tratar todos os dias.
Sabrina Teles; 12/01/2012

Para outro

No começo, tudo tinha aspecto de início. Alegria, esperança, vontades, desejos, sonhos. Construir tudo que almejávamos era nossa prioridade, mas havia inúmeros obstáculos e optamos por esperar o tempo acalmar. O tempo veio, não trouxe o novo sopro que esperávamos, mas uma brisa fria e petrificante. Percebi então, que a história chegara ao meio. Não era o fim, as cartas ainda estavam sobre a mesa, e o que faltava era a vontade de jogar. Você decidiu continuar a partida, e eu dei segmento. Ainda havia emoção. Existia uma carga de expectativas mesmo sendo um jogo antigo. Aproveitei cada suspiro daquele instante, pois sabia que era único. O meio puxa o fim. Quando há linearidade, entende-se que o que começa tem um final, e sabia que logo mais, ele viria. E veio. Silencioso, cauteloso e sorrateiro. Mal pude descansar as pálpebras, que ao abri-las, notei que não havia mais cartas. No entanto, lá estava você com aspecto de fim. Indiferença, descrédito, causando uma sensação de tanto faz. Calei-me, pois o seu silêncio era ensurdecedor, e eu já não podia sequer ouvir minha voz. Levantei-me, te deixei só na mesa. Não havia mais jogo. Desacreditei, mas você achava que eu ainda iria buscar mais uma oportunidade de jogada. Não quis, sai por aí. Ausentei-me. Não há mais o que fazer, pois sabe aquela chance de me fazer feliz que te dei há um tempo? A entreguei para outro.

Sabrina Teles, 07/12/2011

Sem metades

Cansei de meias palavras, de meios amores, de meias vontades, de meias laranjas. Não há ninguém que se satisfaça com frases incompletas. Não há quem seja feliz com um amor vivido até o meio. Não há uma pessoa sequer que sinta vontades pela metade. Não há quem ache outra metade da sua laranja, pois nascemos laranjas inteiras; não nos completamos, complementamos.

Em meio a tantas metades, só o orgulho continua inteiro. Orgulho de se entregar, de ser feliz como o coração manda. Orgulho de admitir que achou uma laranja boa pra lhe complementar. Estúpido! É apenas ele que impede toda a felicidade contida no peito; aprisiona a liberdade de expressão, de sensações e de desejos. Deixa esse orgulho estúpido morrer. Ele só te trava o riso.

Quero vida intensa e densa. Vida inteira, amores inteiros. Não viver vontades reprimidas, apenas sentir e transmitir. Falar o que convir, as palavras não são escravas do cérebro, é possível falar sem pensar; é maravilhoso dizer o que se quer sem ter que elaborar para o ouvido alheio. A vida é boa quando se vive inteiramente. Sem sentimentos partidos ao meio, sem metades da laranja. Sentimentos inteiros, laranjas completas que se juntam para serem mais felizes.

Sabrina Teles; 19/07/2011

Manias estúpidas

Tentei sentir o seu desejo há algum tempo atrás, mas não consegui. Pareço boba, pois sempre esqueço das suas manias estúpidas. Mania estúpida de querer algo somente quando está fora do alcance. Mania estúpida de conseguir e depois não querer mais.

Estive o tempo todo ali. Quando era impossível e invulnerável, você realizou todos os meus anseios. Quando tudo se tornou mais fácil, possível e vulnerável, você se satisfez e deixou tudo para trás.

Agora, o tempo passou e tudo que parecia ser confuso foi para o seu respectivo lugar. Doce e bom tempo, ele mostra o que é ou não de verdade. Fiquei observando as provas dele e junto a essas provas vieram você e as conversas semelhantes do passado. É incrível como nada muda, se nada muda.

Você insiste em alegar que piso em seu coração, mas sabe que se eu acariciasse, você não estaria aqui. Você persiste em dizer que eu sou a culpada por tudo aquilo que nos separa, mas sabe que não fui eu que fechei a porta entre nós, apenas a tranquei e te proibi de voltar.

Sabrina Teles; 13/07/2011

Intitulado

Seis horas da manhã. Muito sono, fruto de uma noite mal dormida. Olho para janela e vejo um dia cinzento e chuvoso. A cama me deseja, e eu também a desejo. Penso em toda a rotina, e a princípio, não há nada que me faça levantar. Fecho os olhos e durmo os cincos minutos de costume. Acordo como se tivesse descansado uma noite inteira. Mais uma vez tento pensar em motivos que me façam deixar o conforto matinal, e desta vez, encontro. O seu olhar, seu sorriso, seu cheiro, seu abraço, seu beijo, invadem a minha mente. O coração acelerado clama por mais um dia ao seu lado. A sua presença me nutre, só há fome de desejo e sede de amor. Te quero muito. O seu sorriso me faz rir, as suas palavras aconchegam minha alma cansada, o seu abraço rotineiro pede para seguir em frente. Seguir com você. Cada dia te querer mais e mais. Sem ter medo de andar por lugares desconhecidos de olhos vendados. Estou contigo. Não quero mais dormir. Não nesse momento que estamos em perfeita sintonia. Quero te sentir, aproveitar cada segundo daquilo que terá fim. O futuro é cruel, mas o presente está ao nosso favor. Viver, não se perder, apenas viver! Levanto. Sigo todos os passos da minha rotina. Desço as escadas e você me espera como em todas as manhãs. O perfume é o mesmo de todos os dias. O sorriso também. O olhar não, em cada nova manhã traz um brilho mais intenso. Brilho de amor. Brilho de eternidade finita. Me beija e contraria os conceitos da biologia, pois em cada momento, a junção dos nossos lábios me desperta uma sensação nova. Sensação de euforia. Sensação de querer estar perto. O dia passa, e a sua presença modifica a gravidade dos conflitos diários. Me coloca pra cima. Me alucina. Me fascina. Onze da noite. Olho pra o céu e vejo estrelas, lua e nenhuma nuvem. Vejo a cama. Ela não parece mais confortável. Penso em você. Não quero dormir. Durante o sono corro o perigo de ter um pesadelo. Prefiro ficar de olhos abertos. Do que me vale os sonhos se a realidade ao seu lado é mais segura? Fico de olhos abertos e não durmo por completo. Para o corpo, a noite parece mal dormida. Para a alma, a sensação de sonhar contigo acordada é que fica.

Sabrina Teles; 08/07/2011

Não espere pela minha vingança, pois ela jamais virá. Não aguarde um olhar de ódio, porque o máximo que terá será o de indiferença. Não acredite que de mim sairão as mesmas coisas que encontrou na última esquina, pois em cada canto que parar, encontrará um coração que pulsa em um ritmo diferente.

Não espere que das minhas mãos saiam bofetadas, socos, ou algo do gênero; se algum dia tiver que te agredir, atacarei com palavras. Se em algum momento quiser te ferir, esfolarei com olhares. E se, por acaso, um dia, desejar te matar, assassinarei com a dor do arrependimento.

Sabrina Teles; 18/05/2011

Unicamente


Não se preocupe comigo, nem com o que acontecerá amanhã, simplesmente, me olhe.

Não queira saber de onde vim e nem pra onde vou, apenas me sinta.

Não tente entender o que não quero falar, somente, aceite que o mistério é melhor para nós.

Não me pergunte se é amor ou paixão, só me beije de olhos fechados.

Não procure na minha memória lembranças suas, simplesmente, faça o presente ficar gravado.

Não repita para outro alguém palavras que me deu de presente, pois a intenção as fazem, e se essa não for a mesma, não será o mesmo presente.

Não tente me encontrar em outras pessoas, sou única. Essa busca incansável, somente, te frustrará e fará você voltar para o ponto de partida: o nosso encontro.

Sabrina Teles; iniciado em 04/10/2010 e retomado em 07/05/2011

Tempo

O tempo passa. Simplesmente ele passa. Vai-se, discorre, apressa-se e não nos diz adeus. Não tem vontade própria. É inerente ao partir. Não se apega, não raciocina, contudo, deixa o seu rastro por onde passa. Nada é intencional, proposital. Ele, realmente, é incapaz de controlar os impactos que causa com sua chegada e partida.

Sente-se mal, manipulador e contraditório. Não entende como pode fazer tanto mal e bem simultaneamente, pois consigo traz rugas, mortes, mudanças, esquecimentos, e em contrapartida carrega juventudes, vidas, permanências, lembranças.

Certa vez, tentou matar-se, mas foi inútil, a imortalidade estava dentro de cada parte que o compunha. Olhou para trás, para frente, viu um grande caminho percorrido e um infinito para cursar. Aceitou-se exatamente como é: incompreensível, indecifrável e incoerente. Percebeu que todos seus caracteres, repletos de negatividade, eram ambíguos e deixavam espaço para tornarem-se positivos, pois era apenas uma questão de prefixo, e essa mudança era tarefa para quem o encontrasse.

Seguindo sua estrada, encontrou uma moça, essa o compreendeu inteiramente e viveu bem enquanto ele esteve por perto. Mas como sempre, o tempo teve que partir. Ela implorou pela sua permanência, porém, ele se foi e levou consigo toda a felicidade momentânea.

Mortal ser humano, não adianta insistir. Por mais que você o queira, ele não ficará. Não é frieza: a partida e a chegada é o que mantem a sua função.

Sabrina Teles ; 28/04/2011

Máscara

Estavam despidos. Diante dos meus olhos não havia segredos, mistérios, nem incógnitas. Éramos somente nós, a brisa do mar e um sol que se punha.
O olhar era firme, parecia real e sincero. As palavras eram poucas, mas as pronunciadas eram doces e singelas. Pela primeira vez, resolvi não reter-me e entregar-me ao momento, não a você.
Aproveitei imensamente cada fração de segundos, embebedei-me com sua sede de amor e mostrei um mundo novo para você. Oh, quão foi ingênuo! Olhava-me como se eu soubesse de tudo, e era incapaz de perceber que tudo era também tão inédito para mim...
Logo depois a brisa parou e a noite chegou seca e escura, não havia estrelas, lua; as nuvens cobriam qualquer vestígio de luz. Olhei para o lado, e você não estava mais ali. Meu coração não acelerou, manteve o ritmo, eu sabia o caminho de volta e a sua ausência, na prática, contrariou a teoria, e não fez diferença alguma.
Os dias após aquele seguiram tranquilamente bem, sem lembranças dolorosas, saudades e lágrimas. Era compreensível a inexistência de sentimentos, pois jamais foi parte da minha rotina anseios pelo irreal. Se entregar apenas aos momentos ajuda-nos a não lastimar, e lembrar deles em primeiro plano, as pessoas acabam ficando para o último.
Mascarado, camuflado, irregular. Pensei que máscaras fossem usadas apenas no carnaval. Mas vejo o quão equivocada estou. As pessoas as usam diariamente, e muitas são imperceptíveis.
Sabrina Teles; 03/04/2011